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Sentiu inchaço, dor na barriga ou cansaço depois de comer pão, macarrão ou bolo? A tentação pode ser parar de consumir glúten. Mas médicos alertam que essa decisão, tomada por conta própria, pode esconder a causa real do problema, atrasar o diagnóstico e levar a uma alimentação menos nutritiva.
A revisão de 25 estudos sobre o assunto, realizados em 16 países diferentes, reuniu 49.476 pessoas. Pouco mais de 10% delas (10,3%) relatou sensibilidade ao glúten ou ao trigo mesmo sem ter passado por uma avaliação médica. Dessas, 40% já haviam tirado o glúten da dieta. Isso mostra o alcance da moda das dietas sem glúten, incentivadas pelas redes sociais. Mas o fato de alguém ter relatado sensibilidade não significa, por si só, que precisasse abandonar pão, massa e outros alimentos com trigo.
“O primeiro ponto que temos que esclarecer é que não existe uma única doença denominada intolerância ao glúten”, explica Flora M. D’Andréa Marcolino, reumatologista e coordenadora do Centro de Pesquisa Clínica na área de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês. Segundo ela, há três condições diferentes: doença celíaca, alergia ao trigo e sensibilidade ao glúten não celíaca.
Quando cortar o glúten é necessário?
A retirada total do glúten é obrigatória, em princípio, apenas para quem tem doença celíaca. Trata-se de uma doença autoimune: em pessoas geneticamente predispostas, o sistema de defesa do corpo reage ao glúten e passa a atacar o próprio intestino delgado.
O glúten é a proteína presente no trigo, no centeio e na cevada. Por isso, pães, macarrões, bolos, biscoitos, cerveja e muitos alimentos industrializados precisam ser evitados por quem tem a doença.
Os sintomas da doença celíaca podem incluir diarreia crônica ou recorrente, perda de peso, cansaço, anemia, aftas, alterações na pele e enfraquecimento dos ossos. Mas nem todo paciente celíaco sente dor de barriga ou diarreia: existe a forma silenciosa, em que a pessoa não percebe sintomas, embora o intestino continue sendo atingido.
Um ensaio clínico publicado na revista Gastroenterology mostrou que doses baixas de glúten podem ativar o sistema imunológico em parte das pessoas com doença celíaca. Por isso, quem recebe o diagnóstico deve manter a dieta sem glúten de forma rigorosa e com acompanhamento médico.
Produtos sem glúten podem fazer mal
Para quem não tem doença celíaca, simplesmente trocar o pão tradicional pelo pão “sem glúten” do supermercado pode não ser uma boa ideia. Muitos desses produtos são feitos com amidos refinados e têm menos fibras, ferro, folato e vitaminas do complexo B do que os alimentos originais.
Para compensar a textura e o sabor que o glúten dá à massa, a indústria costuma acrescentar mais gordura, açúcar e sódio. O resultado pode ser um produto mais calórico, que sacia menos e é pior em termos nutricionais.
“Isso compromete a saúde intestinal, reduz a saciedade e, frequentemente, aumenta o consumo de gorduras, açúcares e sódio”, alerta Cláudia Goldenstein Schainberg, coordenadora do Núcleo de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês.
Investigar antes de cortar
A pessoa que para de comer glúten antes de fazer exames pode dificultar a descoberta da doença celíaca. Sem glúten na alimentação, o corpo produz menos anticorpos — substâncias que os exames de sangue procuram — e a mucosa do intestino pode se recuperar. Assim, o teste pode dar resultado negativo mesmo em alguém que tem a doença.
Além disso, inchaço, gases, cansaço e dores articulares não são exclusivos do glúten. Podem estar ligados à síndrome do intestino irritável, anemia, problemas da tireoide, má qualidade do sono, estresse, outras intolerâncias alimentares ou doenças reumatológicas. Às vezes, o incômodo vem dos frutanos, carboidratos fermentáveis presentes no trigo, e não do glúten em si.
O que fazer
Se você sente desconforto frequente após comer pão, macarrão ou outros alimentos com trigo, não interrompa o consumo de glúten por conta própria. Procure um médico, explique quais sintomas você tem, com que frequência aparecem e em que situações pioram.
A avaliação pode incluir exames de sangue, testes de alergia ou, em alguns casos, endoscopia com biópsia do intestino delgado. O profissional definirá o melhor caminho conforme o quadro.
Se o diagnóstico confirmar doença celíaca, a dieta sem glúten será necessária. Se não houver celíaca nem alergia, o médico poderá investigar outras causas e orientar mudanças alimentares sem colocar em risco o diagnóstico ou a nutrição.
Cinco mitos sobre o glúten
1. “O glúten é inflamatório para todo mundo.”
Não há comprovação científica de que o glúten cause inflamação em pessoas saudáveis. A resposta inflamatória e imunológica ocorre principalmente em quem tem predisposição ou condições médicas específicas, como a doença celíaca.
2. “Dieta sem glúten ajuda a emagrecer.”
O glúten é uma proteína, não um carboidrato, e não tem ligação direta com ganho ou perda de peso. Quem emagrece ao cortá-lo, em geral, é porque reduziu o consumo total de calorias.
3. “Alimentos sem glúten são mais saudáveis.”
Nem sempre. Muitos produtos industrializados sem glúten são altamente refinados, têm menos fibras e nutrientes e podem conter mais açúcar, sódio e gorduras saturadas para compensar a falta de textura e sabor.
4. “Sentir a barriga inchada após comer pão ou bolo prova que tenho intolerância ao glúten.”
O inchaço e a produção de gases podem ter outras causas. O trigo contém carboidratos fermentáveis que provocam distensão abdominal em muitas pessoas, inclusive quem tem síndrome do intestino irritável, sem que isso seja uma reação ao glúten. Comer rápido demais ou ingerir alimentos muito gordurosos também pode gerar os mesmos sintomas.
5. “A doença celíaca sempre causa sintomas, como dores de estômago ou diarreia.”
Nem sempre. Existe a doença celíaca silenciosa, em que a pessoa consome glúten e não sente nada, mas a proteína ainda pode inflamar o intestino. Por isso, exames de sangue preventivos podem ser indicados para grupos de risco, como parentes de primeiro grau de celíacos, portadores de diabetes tipo 1 ou doenças autoimunes da tireoide, como Hashimoto e Graves, além de outras condições autoimunes.
Para conferir
- Shiha, Mohamed G. et al. “Global prevalence of self-reported non-coeliac gluten and wheat sensitivity: a systematic review and meta-analysis.” Gut, 2026. Disponível em: https://gut.bmj.com/content/75/3/502
- Daveson, A. James M. et al. “A Randomized Double-Blind, Placebo-Controlled Dose-Response Study to Assess the Gluten Threshold Dose in Celiac Disease.” Gastroenterology, 2026; 171(2): 285-297. Disponível em: https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(26)00264-7/fulltext

