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A Comissão Europeia autorizou nesta terça-feira (20) a aquisição do controle exclusivo da Fnac Darty pelo EP Group, do empresário tcheco Daniel Křetínský. A decisão de Bruxelas destrava a conclusão da oferta pública de aquisição (OPA), prevista para o início de novembro de 2026, e coloca sob o mesmo comando o dono da segunda maior editora da França e o controlador da maior rede de livrarias do país.
Para o público brasileiro, a notícia desperta uma lembrança específica: a Fnac, que marcou gerações de consumidores em São Paulo e outras capitais com livros, discos, DVDs, eletrônicos e cultura em geral, deixou definitivamente o Brasil em 2018. O grupo francês vendeu sua operação local à Livraria Cultura em 2017 e, no ano seguinte, encerrou também o e-commerce da marca no país.
A fusão aprovada
A autorização da Comissão Europeia foi descrita pela Fnac Darty e pelo EP Group como a última aprovação esperada para a operação. Com o aval, a Autoridade dos Mercados Financeiros da França (AMF) deverá anunciar nos próximos dias o calendário final da oferta, incluindo a data de encerramento.
A oferta prevê o pagamento de 35 euros por ação, valor ajustado após o dividendo de 1 euro pago em 5 de junho de 2026. Originalmente, a proposta havia sido anunciada a 36 euros por ação. O negócio avalia a Fnac Darty em mais de 1 bilhão de euros e deve levar Křetínský, que já detinha 28,5% do capital, a ultrapassar a marca de 50%.
A Fnac Darty seguirá listada na Bolsa de Paris. O grupo atua em 15 países, sobretudo na França, Itália, Bélgica, Portugal, Espanha e Suíça, com cerca de 1,5 mil lojas, quase 30 mil funcionários e vendas superiores a 10 bilhões de euros em 2025.
Mercado do livro está atento
A operação vai além do varejo de eletrônicos. Křetínský é dono da Editis, segunda maior editora da França, e passará a controlar a Fnac, apontada como a principal varejista de livros do país. Para entidades do setor editorial, trata-se de uma concentração vertical incomum: quem publica poderia passar a influenciar também onde, como e com qual destaque os livros são vendidos.
A preocupação envolve tanto as lojas físicas quanto o Fnac.com. Editores e livreiros temem possíveis privilégios de exposição para títulos da Editis nas prateleiras e no site, além de alterações nas condições comerciais com concorrentes. A Fnac vendeu 50 milhões de livros em 2024, segundo dados citados pelo Le Monde e repercutidos pela imprensa especializada.
A Comissão Europeia, porém, concluiu que a operação não levanta preocupações de concorrência, por considerar limitado seu impacto nos mercados em que as empresas atuam. O comunicado divulgado pelas companhias não detalha a análise sobre o mercado editorial nem estabelece compromissos específicos relacionados aos livros.
Leitura estratégica do negócio
A compra também tem um componente defensivo. A alemã Ceconomy, segunda maior acionista da Fnac Darty, com 21% do capital, está sendo adquirida pela chinesa JD.com. Caso o grupo chinês ampliasse sua influência indireta, Křetínský perderia parte do controle sobre a rede.
Ao ultrapassar 50% das ações, o EP Group busca blindar a Fnac Darty dessa influência e assegurar a continuidade de sua estratégia europeia de varejo que combina lojas físicas, e-commerce, serviços e produtos culturais. O CEO da Fnac Darty, Enrique Martinez, havia defendido a proposta como um reforço ao plano estratégico do grupo.
A Fnac que o Brasil conheceu
No Brasil, a Fnac construiu uma identidade que ia muito além da venda de livros. Suas lojas reuniam literatura, música, filmes, games, informática e cultura pop em um formato de convivência que muitos consumidores associavam à experiência de passear, garimpar lançamentos e encontrar itens difíceis de achar em outras redes.
Essa presença terminou de forma gradual. Em julho de 2017, a Livraria Cultura anunciou a compra das operações brasileiras da Fnac, então com 12 lojas. A transação incluiu o repasse da marca ao grupo brasileiro, em um momento em que a operação francesa acumulava prejuízos no país.
Em outubro de 2018, a Cultura confirmou o fechamento da última loja da Fnac, em Goiânia. Dias depois, o e-commerce da marca foi retirado do ar, e o site fnac.com.br passou a direcionar o usuário para a Livraria Cultura — encerrando, na prática, a história da rede francesa no Brasil.
O que muda para o leitor
Para os brasileiros, a aprovação em Bruxelas não altera o acesso a produtos da Fnac no país: a rede não opera mais por aqui. O efeito da fusão será sentido principalmente na Europa, sobretudo na França, onde a Fnac segue como referência de varejo cultural e um dos principais canais de venda de livros.
Ainda assim, a operação reacende um debate que interessa ao mercado editorial global: até que ponto a concentração entre grandes editoras e grandes redes de varejo pode afetar a diversidade de títulos, a visibilidade de autores independentes e os preços praticados no varejo físico e digital.

