Foto Crédito: Mathias Reding/Unsplash.
Relatório registra 189 mortes no biênio, alta de 20%; 67% dos casos ocorreram em países em conflito armado e a impunidade global subiu pela primeira vez desde 2012
Um jornalista foi morto, em média, a cada quatro dias no mundo entre 2024 e 2025, segundo o relatório bienal da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) sobre segurança de jornalistas e impunidade, divulgado no Dia Internacional para Acabar com a Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, celebrado nesta segunda-feira (2).
No período, foram registradas 189 mortes de jornalistas, profissionais de mídia e produtores de conteúdo envolvidos em atividade jornalística — alta de 20% em relação às 158 mortes do biênio anterior.
“Os jornalistas estão pagando cada vez mais com suas vidas por reportar das linhas de frente das guerras e, com muita frequência, os responsáveis por suas mortes não são responsabilizados”, afirmou Khaled El-Enany, diretor-geral da Unesco. Ele reiterou o chamado da organização pelo cumprimento da Resolução 2222 do Conselho de Segurança da ONU, de 2015, que trata da proteção de jornalistas, profissionais de mídia e pessoal associado como civis em situações de conflito.
Guerra volta a concentrar mortes
Dos 189 profissionais mortos entre 2024 e 2025, 127 estavam em países em conflito armado — 67% do total. No biênio anterior, essa proporção havia sido de 43%.
O número de jornalistas mortos em contextos de conflito subiu de 20, em 2021, para 63 em 2025. A Unesco atribui parte do aumento ao uso de veículos aéreos não tripulados, os drones: 50 jornalistas morreram em ataques com esses equipamentos em seis países, o equivalente a 40% das mortes em zonas de conflito e 26% do total global.
A organização também registrou sete incidentes em que vários jornalistas foram mortos no mesmo ataque, incluindo ações contra locais de trabalho de mídia e centros temporários de cobertura. Quinze profissionais morreram enquanto usavam coletes identificáveis de imprensa ou estavam em veículos claramente marcados como veículos de imprensa.
Jornalistas locais representaram 90% das vítimas em países em conflito. Entre os profissionais estrangeiros mortos nesses territórios, a maioria atuava na Ucrânia e na Síria.
União Europeia pede proteção
Em declaração conjunta divulgada na véspera do Dia Internacional para Acabar com a Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, o vice-presidente executivo da União Europeia, Henna Virkkunen, a alta representante da UE para Política Externa e Segurança, Kaja Kallas, e o comissário europeu Michael McGrath afirmaram que a violência contra jornalistas “mina os próprios alicerces de sociedades abertas, livres e democráticas”.
Os representantes europeus afirmaram que o direito internacional humanitário é claro ao classificar jornalistas como civis que devem ser protegidos em todos os momentos. Segundo a declaração, qualquer ataque ou ato de intimidação deve ser investigado de forma imediata, independente e eficaz, e os responsáveis devem ser responsabilizados.
A declaração também aponta que as ameaças vão além das zonas de conflito. Segundo o texto, jornalistas enfrentam assédio coordenado online, vigilância ilegal, campanhas de descredenciamento, repressão transnacional, processos judiciais abusivos, coerção econômica e interferência estrangeira.
“Neste Dia Internacional para Acabar com a Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, pedimos a todos os Estados que cumpram suas obrigações: protejam os jornalistas, investiguem os crimes contra eles e levem os responsáveis à Justiça”, afirmaram Virkkunen, Kallas e McGrath.
Onde as mortes ocorreram
Na divisão regional adotada pela Unesco, os Estados árabes concentraram 97 mortes, seguidos pela América Latina e Caribe, com 37, e pela Ásia e Pacífico, com 34. A Europa Central e Oriental registrou 14 casos, a África, seis, e a Europa Ocidental e América do Norte, um.
A Palestina teve o maior número de mortes nos dois anos: pelo menos 30 em 2024 e 32 em 2025. México, Paquistão, Sudão, Iêmen e Ucrânia também apareceram entre os países com mais vítimas.
No Brasil, a Unesco registrou uma morte de jornalista em 2025.
Impunidade sobe pela primeira vez desde 2012
O relatório informa que a taxa global de impunidade por assassinatos de jornalistas subiu pela primeira vez desde que a Unesco começou a medi-la, em 2012. O indicador passou de 85%, no biênio anterior, para 86% em 2024-2025.
Esse percentual considera o status judicial de todos os casos registrados pela organização desde 2006, e não apenas as 189 mortes ocorridas em 2024 e 2025. Do total histórico, 223 casos foram resolvidos, enquanto 1.013 seguem em andamento ou sem solução; outros 321 não tiveram informações atualizadas e continuam classificados como não resolvidos.
A Unesco também aponta queda na resposta dos Estados aos pedidos de informação sobre investigações. Dos 78 países consultados, 48 responderam — 40 com informações sobre os casos e oito apenas acusando recebimento —, enquanto 30 não responderam. A taxa de resposta foi de 62%, abaixo dos 80% do ciclo anterior.
Avanço em países sem guerra
Nos países sem conflito armado, foram registradas 62 mortes de jornalistas em 2024 e 2025, o menor número nesse grupo de países em 18 anos.
A taxa de impunidade nesses países caiu de 94%, em 2012, para 77% em 2026. Para a Unesco, o dado indica que avanços são possíveis quando governos investem em investigações, processos judiciais e mecanismos de proteção a profissionais da imprensa.
Mulheres e violência digital
Quatorze mulheres jornalistas foram mortas no biênio, o equivalente a 7% do total. Dessas, 13 — 93% — morreram enquanto cobriam conflitos armados.
O relatório também destaca a violência contra mulheres jornalistas fora das zonas de guerra. Em pesquisa de 2025 realizada pela ONU Mulheres e pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ), em cooperação com a Unesco, 75% das entrevistadas relataram ter sofrido abusos online. A proporção das que disseram ter sofrido violência offline decorrente de assédio digital mais que dobrou, de 20% na pesquisa anterior para mais de 40%.
A declaração da União Europeia destaca que mulheres jornalistas são alvos desproporcionais e que alguns atores estatais e não estatais perseguem deliberadamente defensoras de direitos humanos e jornalistas.
Condições de trabalho e proteção
O documento também aponta mudanças nas condições de exercício da profissão. Segundo estudo da Organização Internacional do Trabalho citado pela Unesco, o crescimento do trabalho freelance e a redução de contratações em redações aumentam a exposição de profissionais autônomos a riscos, com menos acesso a treinamento de segurança, equipamentos de proteção e apoio jurídico, social e psicológico.
Entre as medidas nacionais, o Brasil informou ter adotado o Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, iniciativa do Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais. O mecanismo foi incluído no repositório global de práticas de proteção da Unesco.

